Quando o descanso deixa de ser exceção e passa a ser cuidado
Por Daiane Oliveira Pacheco*
No dia a dia do atendimento psicológico, quando falamos sobre trabalho, uma queixa aparece de forma recorrente: o cansaço que não passa. Não é apenas o corpo cansado, é a mente que já acorda exausta, mesmo depois de uma noite de sono. Em muitos desses relatos, a escala 6×1 está diretamente relacionada a esse desgaste contínuo.
Trabalhar seis dias seguidos, especialmente no comércio, onde o ritmo é intenso e a exigência emocional é constante, deixa pouco espaço para uma recuperação real. O único dia de folga acaba sendo usado para resolver pendências, cuidar da casa, da família e da vida pessoal. O descanso verdadeiro, aquele que permite desacelerar, quase nunca acontece. Com o tempo, surgem sinais claros de esgotamento: irritabilidade, ansiedade, dificuldade de concentração, queda de motivação e, em muitos casos, sintomas compatíveis com burnout.
O fim da escala 6×1 representa uma mudança importante na forma de enxergar o trabalho. O descanso deixa de ser visto como algo distante ou excepcional e passa a fazer parte da rotina. Quando o trabalhador sabe que terá pausas mais próximas, a relação com o trabalho muda. A ansiedade diminui, a sensação de “viver apenas para trabalhar” perde força e há mais espaço para a vida fora do ambiente profissional.
Do ponto de vista da saúde mental, essa nova escala é muito significativa. Pessoas mais descansadas lidam melhor com os desafios do dia a dia, com metas e com o contato direto com o público. Isso também reflete na segurança: o cansaço acumulado reduz a atenção, aumenta a chance de erros e de acidentes. Mais descanso não significa menos produtividade, mas sim mais presença, mais foco e mais qualidade no trabalho realizado.
A escala 5×2 surge como uma alternativa mais saudável e alinhada com a realidade atual. Dois dias de folga permitem uma melhor recuperação do organismo e da mente. Mesmo quando essas folgas não são consecutivas, ainda assim há ganhos importantes, pois o trabalhador deixa de enfrentar longos períodos contínuos de desgaste físico e emocional.
É importante destacar que essa mudança já não é apenas teórica. Diversas empresas já aderiram voluntariamente à escala 5×2, entre elas supermercados, redes de lojas e estabelecimentos do comércio local. A experiência tem sido positiva, tanto para os trabalhadores, que relatam mais disposição, equilíbrio e bem-estar, quanto para a própria gestão, que observa maior engajamento e redução da rotatividade.
Esse debate se torna ainda mais necessário quando observamos os dados oficiais. Segundo informações divulgadas pelo Ministério da Previdência Social, o Brasil registrou, em 2025, 546.254 afastamentos do trabalho por transtornos mentais, um aumento de 15% em relação ao ano anterior. A maior parte desses afastamentos está concentrada em diagnósticos de ansiedade (166.489 licenças) e depressão (126.608 afastamentos).
Esses números não surgem de forma isolada. Eles refletem um modelo de trabalho que, em muitos casos, ainda é marcado por jornadas longas, pressão constante, vínculos precários e pouco espaço para o descanso e para a vida pessoal. Quando o estresse deixa de ser pontual e passa a ser contínuo, ele se transforma em adoecimento.
Sob a ótica da Psicologia Organizacional, não é coincidência que empresas enfrentem hoje dificuldades para contratar trabalhadores dispostos a atuar na escala 6×1, especialmente entre os mais jovens. Essa geração não rejeita o trabalho, mas questiona modelos que comprometem a saúde e a qualidade de vida. Para eles, equilíbrio entre vida pessoal e profissional não é um benefício extra, é uma condição básica.
Refletir sobre o fim da escala 6×1 é refletir sobre prevenção em saúde mental. É compreender que números tão elevados de afastamentos por ansiedade e depressão não serão reduzidos apenas com intervenções individuais, mas com mudanças estruturais na forma como o trabalho é organizado.
Cuidar da escala de trabalho é, acima de tudo, cuidar da saúde emocional de quem mantém o comércio funcionando todos os dias. E esse cuidado se reflete não apenas no ambiente profissional, mas na vida como um todo.
*Psicóloga – CRP 07/28598 | Pós-graduada em Psicologia Organizacional, MBA em Gestão de Departamento Pessoal e Relações Trabalhistas. Conveniada ao Sindicomerciários de Taquari, Teutônia e Montenegro
