Trabalhador doente, estado ausente: Sintratel participa de debate sobre crise de saúde mental e precarização no telemarketing

 Trabalhador doente, estado ausente: Sintratel participa de debate sobre crise de saúde mental e precarização no telemarketing
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“Quando o estado sabe que existe [a violação de direitos], ele vê que existe, ele tem a prova e ele nega, ele faz parte do sistema de exploração de adoecimento do trabalhador. (…) As pessoas do telemarketing são “suicidadas”. Isso não é contabilizado, não é falado, não é medido.” Essa foi uma das falas da presidenta do Sintratel RS, Crislaine Carneiro, durante o “Encontro: Discussão do Adoecimento no Teleatendimento/Telemarketing” que aconteceu nesta quinta-feira, 5 de março, no auditório da Fundacentro, em São Paulo.

O evento contou com a presença do público e foi transmitido ao vivo pelo canal do YouTube da entidade. O debate reuniu trabalhadores, sindicatos e empregadores para lançar luz sobre um ambiente profissional frequentemente marcado por ritmos intensos, ausência de pausas e graves riscos psicossociais. Além de Crislaine, o vice-presidente do Sintratel RS, Elder dos Santos, também esteve presente para trazer à tona a dura realidade enfrentada por quem atua nas centrais de atendimento.

Na sua fala, em um relato contundente, Crislaine denunciou que o assédio moral no setor é “estrutural” e ilustrou a gravidade do problema citando um caso em que um operador procurou o sindicato para relatar abusos e, apenas uma hora depois, a supervisora denunciada também ligou para o sindicato para acusar a coordenadora. É um ciclo sem fim.

Para a dirigente, a lógica do setor impõe que o lucro das empresas esteja “acima de tudo e de todos”, operando em um cenário de forte disparidade nas negociações trabalhistas, agravado após a reforma trabalhista. Apesar de existirem raros acordos positivos – como escalas de 4×3 e pisos salariais melhores -, Crislaine alerta que essa “não é a regra”, o que torna urgente a presença do Estado para garantir a saúde e prevenir o adoecimento crônico da categoria.

A maquiagem do Burnout e a negligência governamental

Coordenado por Remígio Todeschini e Cleiton Faria Lima, da Diretoria de Conhecimento e Tecnologia (DCT) da Fundacentro, o encontro reforçou a importância da aplicação da Norma Regulamentadora 17 (NR-17), em especial seu Anexo II, focado nas atividades de telemarketing. A norma busca garantir o máximo de conforto, segurança e saúde.

No entanto, a prática nas empresas desafia a legislação. Crislaine denunciou a recusa sistemática das empresas em emitir a Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) e a negligência dos peritos do INSS e médicos corporativos em atestar a Síndrome de Burnout. A dirigente acusa os médicos de ignorarem a “estrutura doente de trabalho”, preferindo culpar o estilo de vida do trabalhador, como o uso de transporte público ou o fato de morarem em regiões periféricas.

Ela aponta que as multas aplicadas pelo descumprimento de Termos de Ajustamento de Conduta (TAC) são irrisórias, criando um cenário onde o descumprimento de leis compensa financeiramente. Compartilhando sua própria vivência, a presidenta relatou já ter sofrido com o Burnout e com a redução de sua audição devido ao tempo excessivo nas posições de atendimento (PAs).

Metas inatingíveis, dependência emocional e o risco à vida

O debate também evidenciou um recorte social profundo: o setor é composto majoritariamente por mulheres, mães solo, pessoas negras de periferia e a população LGBTQIA+. Trata-se de um nicho vulnerável, frequentemente transformado em “refém” de remunerações variáveis. As empresas dobram sucessivamente as metas de atendimento, levando as trabalhadoras a um ciclo de falha constante, onde o adoecimento surge não por causa das metas abusivas, mas pela falsa crença de incapacidade pessoal.

A manipulação psicológica gera o que Crislaine descreve como uma perigosa “dependência emocional” do trabalhador que faz com que ele não consiga nem se desligar da empresa. O impacto dessa violência invisível atinge extremos: a dirigente relatou o episódio de uma trabalhadora que, após uma sessão de “feedback”, saiu correndo em direção ao metrô e quase tirou a própria vida. Segundo ela, os operadores não se suicidam de forma isolada, eles são “suicidados” por um sistema exaustivo e alienante que não contabiliza seus mortos.

Para isso, é preciso cobrar constantemente que as instituições respeitem às normas da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e também reforçar a responsabilidade do Estado.

Encaminhamentos e propostas

Ao final do encontro, os participantes destacaram que o debate marca o início de uma mobilização mais ampla para atualizar as regras que regem o setor. A proposta é iniciar um processo de discussão para revisão da Norma Regulamentadora 17, especialmente do Anexo II, que trata das atividades de teleatendimento e telemarketing.

Desde a criação da norma houve profundas mudanças nas ferramentas e nas formas de organização do trabalho no setor, o que exige uma atualização da regulamentação. Entre os pontos defendidos está a construção de uma norma que efetivamente proteja a saúde dos trabalhadores e previna doenças ocupacionais, além da defesa da redução da jornada de trabalho para 30 horas semanais, com limite de 6 horas diárias, medida considerada fundamental para reduzir o adoecimento na categoria.

Encerrando sua participação, Crislaine reafirmou a importância de reconhecer o papel social desempenhado pelos trabalhadores do setor. “Nós não perturbamos ninguém. Nós atendemos no SAMU, atendemos quando alguém sofre fraude no cartão de crédito, quando precisa resolver um problema. Nós prestamos um serviço essencial para a sociedade”, afirmou. “Chegamos a um momento em que não há mais como nos calar”, finalizou.


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